sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Um pensamento sobre o eu-cristão, discurso.



“Para os outros, o universo parece honesto. Parece honesto para as pessoas de bem porque elas têm olhos castrados. É por isso que temem a obscenidade.”
Georges Bataille

Por mais discussões que convivo, vejo e escuto a cada dia, mais me traz estranhamento a questão do discurso do cristão. Não é somente a questão religiosa, nem do Deus, mas o que acontece no discurso, na ação do dia a dia de como parecer para o outro, sempre protegido pela proteção do divino. Ultrapassar a barra do sujeito recalcado, reprimido, parece, em um primeiro momento muito árduo, como se é em qualquer recalque. O que faz-se pensar aqui é o dispositivo para esse recalque. O que fomentou o pensamento foi um exemplo que presenciei. Aconteceu com quem vou chamar aqui de Amiga, disse quando em um café da manhã, após um silêncio longo, a frase: "sabe que eu gostaria tanto de usar calça jeans? Acho que as mulheres ficam tão lindas vestidas com ela". Levantou-se a questão: o que pode estar acontecendo no pensamento dessa moça? Por que ela deseja algo e não pode ter simplesmente por seguir alguma doutrina? É preciso antes pensar na questão da cultura. Está contido no brasileiro a cultura religiosa, cristã, depositando sua fé a um saber, esse não suposto, remetendo suas ações ao divino e, consequentemente, se privando de ser ou de buscar o objeto causa de desejo. Como sanar as pulsões sexuais, o desejo se esses estão, de alguma forma impedidos latentes porém questionados dentro do sujeito? Freud, em seu texto "O Mal-Estar na Civilização" questiona a religião como parte desse mal-estar ligada também ao crescimento e desenvolvimento da humanidade. Essa cultura, como toda lei infere um dispositivo comum, a repressão. O pai ensina à criança o caminho de sua fé e a cada ano esse ensinamento pode ser entendido como obrigação, com um mecanismo que não deixa de ser violento, o medo. A criança passa a pensar sua vida e depositar suas ações em um Sujeito-Saber. O problema é o que esse medo impede a cada passo, nas questões pessoais, pulsionais. Fica então o estranhamento de entender o que acontece para que advenha um discurso sobre algo a princípio simples, mas que torna-se algo distante, proibido.
O pensamento tenta, onde não consegui chegar ainda, falar do discurso. O que esse discurso tenta expor? Como essa amiga coloca no discurso um não poder ser? A fala sai, o desejo quer sair mas se mantém, pela lei, reprimido e mostra no discurso uma metáfora, algo que o sujeito fala tentando se afirmar no outro querendo poder usar a calça, reprimindo o desejo tendo prazer talvez como um voyeur, pelo olhar como um gozo do imaginário, na figura da beleza feminina. Olhando a femilinidade imaginária do outro, essa amiga, ao reprimir o desejo de usar a calça jeans, deposita no outro seu prazer de um corpo feminino mostrado como silhueta, pelas bordas. Nesse sentido, ela pode gozar com o corpo do outro pelo olhar, mas vem à tona a questão da lei que a impede, principalmente com a defesa de que o sexo é para reprodução e essa fiel se limita da feminilidade de seu próprio eu. Ao demonstrar esse desejo no discurso é possível perceber uma fala de alguém que busca no olhar suprir sua demanda desejante e que aparenta ser o que ela busca, mas é barrada pelo recalque dessa lei cristã.
O discurso do cristão envolve uma postura levada nas ações que o sujeito toma a todo momento, falando, dando testemunho e ao mesmo tempo se reprimindo de seus desejos. Nesse sentido, quem fala no discurso? Para Lacan, a foraclusão do Nome-do-Pai acarreta em psicose. A função paterna não existe e por isso o sujeito barrado advém com os sintomas psicóticos. Em contrapartida, digamos que o Nome-do-Pai não foi foracluído no exemplo da Amiga, mas se a imposição desse Sujeito-Saber puder substituir, como um véu da alienação a barra do sujeito, implicando aí o ser que advém não somente de um grande Outro, mas também do outro, aquele que ele acredita ter todo o saber possa substituir a fala em um discurso "esse não sou eu, sou o que esperam que seja". A Amiga fala pelo recalque imposto, fomentada pelo dispositivo do medo, muito bem usado pela religião dela, foracluindo aqui o ser e suas ações. Não posso deixar de pelo menos mencionar o belo texto batailiano, História do olho no qual a personagem Marcela se reprime arduamente seu desejo, mas após lutar contra ele, sucumbe ao prazer com Simone:
“(...) Marcela, a quem abraçava por trás, a mão puxando as coxas e abrindo-as com força.(...) Quando voltamos ao quarto ela estava morta.”
Marcela não suporta ter se deixado levar pelo desejo e no decorrer do texto, após se entregar ao desejo, se entrega também à morte. Esse exemplo pode se assemelhar aqui mostrando o sofrimento de querer libertar seu desejo, mas com a certeza de que, pulsional, poderá levar a morte, mas uma morte talvez como causa de desejo, pelo menos uma vez vivida, eis a personagem. O que é impedido é um tanto violento e pode esse recalque aparecer no sujeito em forma de sintoma, sem dúvida. Com o exemplo da Amiga fica uma dúvida sobre seu discurso, pois as questões que apresenta são reações de tudo que nela foi imposto e pode não ser o que ela quer e por isso sempre seu discurso se transforma em uma metáfora, uma substituição de um desejo reprimido deslocado em algum lugar que foge dele mesmo e esse discurso transforma-se em um engodo. Necessário sempre interpretar sua fala atravessando toda essa repressão tentando buscar nesse sujeito o que foi deslocado. Deixar de ser, de tomar partido, de esconder seu desejo por essa lei pode, talvez, proteger essa pessoa de lidar com ela mesma, se protegendo pela tela da fantasia, tentando permanecer longe do real para não se assemelhar com Marcela e encontrar a morte do sujeito. Então o discurso fica também fantasístico, descaminhado, deslocado, solto na linguagem pedindo ali uma interpretação metafórica para o conteúdo de sua fala. Em que a religião pode servir como substituto na vida dela? O que falta nessa pessoa para que tenha que se sustentar nessa fé a ponto de reprimir seu ponto fundamental? O discurso é pura fantasia. No Seminário de Lacan, livro 10, ele coloca: ”O eu minto é perfeitamente aceitável, uma vez que o que mente é o desejo, no momento em que, ao se afirmar como tal, expõe o sujeito à anulação lógica em que se detém o filósofo, ao ver a contradição do eu minto.” A questão que acontece com a Amiga é aceitar completamente a lei que originou o recalque e ver seu desejo com a própria questão da mentira. O que mente é o desejo, de usar a calça jeans, de sentir-se mulher, encontrar a feminilidade, sentir-se desejada, usar a fantasia para se proteger desse real que tanto a assusta, mas que não escapa a pulsão de morte desse desejo. Esse eu-cristão é violentado a cada momento, remontando a questão de ser aquilo que o Outro quer que ela seja, aquele que a obrigou a ser, que a recalcou. O desejo fica latente, advindo no discurso, aparecendo a cada mulher com calça jeans e interpretado como uma mentira de seu eu, como o que a fomentará para cada vez poder fugir de seu pensamento que se repetirá compulsivamente em busca de um real. Se o desejo é o que mente e o sujeito fala pelo recalque, o que interpretar de cada discurso dessa pessoa? Ela diz o que se afirma como verdade, mas é protegida pela tela de sua fantasia para encontrar o desejo que mente, que é o seu real, porém ela sabe que se deixar a tela da fantasia cair ela sucumbirá, como fez Marcela.
Eis o discurso do eu-cristão que foi recalcado pela lei e guardou seu desejo afirmando nesse ser sua grande mentira que a levará a um fim desejado mas que é o desejo do Outro, que é o grande pilar para esse sujeito, mas que foge ao seu próprio desejo. E o nosso discurso? Um exemplo como o da Amiga é o mesmo de um neurótico qualquer. Não é somente o eu-cristão que assume esse desejo com mentira. Somos todos alvos de um discurso que nos reprime, nos impossibilita de desejar, reprimidos pelo grande Outro, tendo por borda a cultura em nossa volta e os desejos reprimidos do pai. Tantas leis que são impostas para o sujeito, tantos nãos ouvidos na infância, tanto medo colocado, fazendo recalcarmos o que nos sustenta, colocando o desejo como a mentira do nosso inconsciente. Cada discurso advém com sua estrutura reprimida tendo de ser interpretado a cada palavra, pois está sempre nesse engodo da mentira que tento esconder para continuar sendo o que o Outro quer que eu seja e sempre escondendo meu desejo, meu real e assim afastar-me do encontro com o auge do prazer, a morte.

BATAILLE, Georges. História do olho. São Paulo: Cosac Naify, 2005.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
_____________. O Seminário, Livro 10, A Angústica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004
_____________. O Seminário, Livro 11, os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.
_____________. O Seminário: Livro 20: mais ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer (1920) [Jenseits des Lustprinzips( G.S.,6,191-257 e G.W., 13, 3-69.) Trad. Inglês: Beyond the Pleasure Principle. Standard Ed..)] Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud Vol.XVIII. Rio de Janeiro. IMAGO 1974
_____________. O Mal-Estar na Civilização(1930[1929]) [ Das Unbehagen in der Kultur (Viena, G.S., 12, 29; G.W., 14,421)Trad. Inglês: `Civilization and its Discontents' (Londres, 1930; Nova Iorque, 1961; Standard Ed., 21, 59)] Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud Vol.XXI. Rio de Janeiro. IMAGO 1974
_____________. Moisés e o Monoteísmo. Três Ensaios (1939[1934-38]). [ Der Mann Moses und die Monotheistische Religion. Drei Abhandlungen (G.W.,16, 101-246) Trad. Inglês: Moses and Monotheism.Standard Ed.):Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud Vol.XXIII. Rio de Janeiro. IMAGO 1975