quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Assobio - Miniconto


Um assobio sinaliza a descida, coração sempre palpita na expectativa da chegada, da surpresa. Fico sempre no tédio entre o momento de esperar e de acontecer. Posso sentir o tamanho minúsculo do meu coração abraçando as artérias tediosas. As pernas não conseguem parar, precisam exercitar para que os dedos das mãos sobrevivam a mais uma sessão de apertos estaladores. Por que essa sensação? Somente ela pode preencher o vazio de não saber o que vou saber, logo. Ainda o silêncio enaltece o barulho das minhas angústias, posso mapear cada risco azul que transpassa da janela. Sem saber, sabendo que chegará. Para que marcar uma hora se é impossível esse momento chegar? Sei que nunca chegaria na hora marcada, mas preciso de um norte para sofrer; imaginar cento e vinte e duas possibilidades de ausências e presenças em cada segundo que o ponteiro do relógio anda. Pelo menos ele anda, eu consigo parar. Posso fazer parar o tempo com tanto tédio... ansiedade, confesso. Vou poder seguir quando chegar, até lá posso me movimentar, me reconstruir. Poderia dormir, mas meus dentes diminuiriam de tamanho com tanto bruxismo. Posso esperar mais um pouco, mas somente um pouco. Achei que ouvi um assobio, mas foi minha imaginação, como sempre, me pregando peças. Mas e se o assobio chegar e eu achar que foi minha imaginação? Preciso conferir na janela e não aguento mais aparecer na janela feito um pássaro cuco, haja timidez. Receio sentar e ver tv, o problema é que assim não ouvirei o assobio. Ainda tenho tempo de desistir. Ir embora e para o inferno com essa espera! Mas vou esperar um pouco, tenho medo do inferno. Talvez consiga ensaiar algum discurso. Ora discurso, não posso ser assim tão previsível, posso ser somente eu. Previsível... melhor parar de pensar nessa chegada, posso somente me sentar, beber uma cerveja. Mas posso ficar com cheiro de bebida, ficaria mais fácil um julgamento negativo! Há, julgamento. Gostaria de ser julgado pelo crime de ser ansioso. Mas acho que não sobreviveria para receber o veredito. Ainda posso esperar sem que tenha de trocar de roupa novamente, mas minhas pernas se movem com uma facilidade invejável, me impressionam. Me resta o aguardo, um guardar o tempo, tempo de minuto impossível. Olhar a janela seria menos drástico, meu coração que já não mais no peito sinto, dificulta minha saliva de descer na garganta. Vou olhar mais uma vez, poderia me distrair com as imagens que estão lá fora, posso me deparar com uma surpresa! Eu espero pela surpresa, eu matei a surpresa. Posso fingir ser surpresa e me superar com tamanho sorriso. Meu sorriso, posso dizer que é um sorriso, claro. Mas não posso fazer barulho ainda, tenho que sorrir internamente. Ainda vou esperar por ele, basta sentar e amarrar minhas pernas. Chegarei ao ponto em que me desfalecerei, pedaços espalhados pelo chão ou um infarto! Posso também esperar mais um pouco. Assobio... assobiam! Eis que ouço o assobio, sinto os pés pesados e uma ansiedade de sair imediatamente. Abro a porta, desço e encontro, enfim! Tome seu dinheiro, entregue-me o livro, mensageiro. Agora subirei, sentarei. Abro o livro, as pernas começam um estado sudorético. Agora que a tão chegada aconteceu, posso abrir o livro? Vou lê-lo, mas e se não for o que imaginei? Será ótimo se não for o que imaginei, gosto de surpresas, mas vou lê-lo amanhã, prefiro esperar, mover-me em ansiedade.

06-2013
Rafael Machado

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