Um assobio sinaliza a descida,
coração sempre palpita na expectativa da chegada, da surpresa. Fico sempre no
tédio entre o momento de esperar e de acontecer. Posso sentir o tamanho
minúsculo do meu coração abraçando as artérias tediosas. As pernas não conseguem
parar, precisam exercitar para que os dedos das mãos sobrevivam a mais uma
sessão de apertos estaladores. Por que essa sensação? Somente ela pode
preencher o vazio de não saber o que vou saber, logo. Ainda o silêncio enaltece
o barulho das minhas angústias, posso mapear cada risco azul que transpassa da
janela. Sem saber, sabendo que chegará. Para que marcar uma hora se é
impossível esse momento chegar? Sei que nunca chegaria na hora marcada, mas
preciso de um norte para sofrer; imaginar cento e vinte e duas possibilidades
de ausências e presenças em cada segundo que o ponteiro do relógio anda. Pelo
menos ele anda, eu consigo parar. Posso fazer parar o tempo com tanto tédio...
ansiedade, confesso. Vou poder seguir quando chegar, até lá posso me movimentar,
me reconstruir. Poderia dormir, mas meus dentes diminuiriam de tamanho com
tanto bruxismo. Posso esperar mais um pouco, mas somente um pouco. Achei que
ouvi um assobio, mas foi minha imaginação, como sempre, me pregando peças. Mas
e se o assobio chegar e eu achar que foi minha imaginação? Preciso conferir na
janela e não aguento mais aparecer na janela feito um pássaro cuco, haja
timidez. Receio sentar e ver tv, o problema é que assim não ouvirei o assobio.
Ainda tenho tempo de desistir. Ir embora e para o inferno com essa espera! Mas
vou esperar um pouco, tenho medo do inferno. Talvez consiga ensaiar algum
discurso. Ora discurso, não posso ser assim tão previsível, posso ser somente
eu. Previsível... melhor parar de pensar nessa chegada, posso somente me
sentar, beber uma cerveja. Mas posso ficar com cheiro de bebida, ficaria mais
fácil um julgamento negativo! Há, julgamento. Gostaria de ser julgado pelo
crime de ser ansioso. Mas acho que não sobreviveria para receber o veredito.
Ainda posso esperar sem que tenha de trocar de roupa novamente, mas minhas
pernas se movem com uma facilidade invejável, me impressionam. Me resta o
aguardo, um guardar o tempo, tempo de minuto impossível. Olhar a janela seria
menos drástico, meu coração que já não mais no peito sinto, dificulta minha
saliva de descer na garganta. Vou olhar mais uma vez, poderia me distrair com
as imagens que estão lá fora, posso me deparar com uma surpresa! Eu espero pela
surpresa, eu matei a surpresa. Posso fingir ser surpresa e me superar com
tamanho sorriso. Meu sorriso, posso dizer que é um sorriso, claro. Mas não
posso fazer barulho ainda, tenho que sorrir internamente. Ainda vou esperar por
ele, basta sentar e amarrar minhas pernas. Chegarei ao ponto em que me
desfalecerei, pedaços espalhados pelo chão ou um infarto! Posso também esperar
mais um pouco. Assobio... assobiam! Eis que ouço o assobio, sinto os pés
pesados e uma ansiedade de sair imediatamente. Abro a porta, desço e encontro,
enfim! Tome seu dinheiro, entregue-me o livro, mensageiro. Agora subirei,
sentarei. Abro o livro, as pernas começam um estado sudorético. Agora que a tão
chegada aconteceu, posso abrir o livro? Vou lê-lo, mas e se não for o que
imaginei? Será ótimo se não for o que imaginei, gosto de surpresas, mas vou lê-lo
amanhã, prefiro esperar, mover-me em ansiedade.
06-2013
Rafael Machado
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