Outro dia em que corta o céu o
vermelho ensolarado do fim da tarde, o vermelho do rosto refletido na janela,
que faz sombra no ocre cor do olho. Um observa. Observa o passo, o passo
daquela que distancia, que aperta o coração como arames elásticos. Ela. Devo
dizer minha página escrita, tecida em cada palavra costurada em tramas
espaçadas? Como seria dizer sobre cada letra que desloca em minha imaginação,
desejo. Desejo? Me perco em construir alguma linha que possa guiar-me a ela.
Alhures. Não aqui, sempre peregrino. Mas posso vê-la da fresta, lugar de
segurança que me sustenta em náuseas. Posso dizer, mas nunca serei entendido,
pois nunca saberei o que dizer. Olhar é mais seguro. Posso ser um fantasma de mim,
mas sem sê-lo, pois sem me mostrar serei somente um fantasma e não de mim,
saberei que serei eu somente em texto. Mas ela passa... retorna. Posso dizer
ainda mais, quando disser que penso ou que digo no escrito, mas não serei mais
eu, serei um texto. Uma cristalização do tempo, parado em tempo de marcar o
traço, dizer o que está ali, o que é o agora. Depois essa cristalização pode se
deslocar pela pupila do outro, que não me leria, leria um texto. Então o que
dizer sobre cada passo que arrasta poeira e bendiz minhas letras? Minhas
letras... Se escrevo não podem ser minhas, são do papel, são de todo e qualquer
outro que as leiam, é dela. Ainda vejo o passo e em um momento só o rastro
resta. Sugiro voltar a tentar dizer o que a faria olhar para cima. Posso dizer
a minha janela, posso dizer que olhe aqui, posso ser visto, em uma nudez de
minha incapacidade de mostrar-me. São somente tudo palavras, traços, riscos,
marcas. De cima cabelos que cortam o rosto, não me dizem o que é das maçãs do
rosto, não seria necessário. A necessidade é dizer, vou dizer, vou aqui,
margear minha ausência. A ti posso não revelar, posso somente dizer o que nem
está escrito aqui. Podemos juntos ler os espaços vazios deste texto que tem
muito mais o que dizer. Posso caminhar pela rua e conseguir um olhar, não mais
da janela, em vertigem de uma decepção que me escapa. E... posso tentar só não
fazer e tentar-me, eis-me de novo envolto em vermelhidão de fim de tarde. Olhar
o branco que fascina e que me convida a marcar é olhar olhos de tinta. Posso
seguir um passo, pas de sense. Outro
dia esse que me escapa, que nada me diz, mas que posso tirar dele um aquém, mallarmaico
lance de dados. Lanço o desejo do outro, em mim, meu desejo de estar aqui,
aquém, alhures, minar palavras ao outro do texto, de qualquer texto. Vou
descer, abandonar a janela, vou dizer oi, enfim, e me desfalecer, palavras em
pedaços: dilaceramento. Passar do rastro ao outro: um dizer, não. Somente
letras.
Rafael Machado
03.06.13

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